A incrível história do professor que não sabia ler

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Se isso é possível? A resposta é sim.  Essa história aconteceu nos EUA com o americano John Corcoran, de 77 anos. Ele conseguiu burlar o sistema, se formou na faculdade e ainda deu aulas durante 17 anos. Tudo isso mesmo sem saber ler, escrever ou até soletrar.

Em depoimento à BBC, reproduzido pela BBC Brasil, ele relata o sofrimento de ter tido que recorrer a estratégias frequentes para esconder seu analfabetismo, até decidir revelar a verdade para a mulher aos 48 anos. A partir daí ele mudou sua história.

 A infância na escola

Quando era aluno de escola primária, John começou a apresentar problemas de aprendizado. Os métodos de ensino padrão não funcionavam para ele porque tinha problemas auditivos que interferiam em sua capacidade de entendimento. John não entendeu isso até décadas depois, quando foi pedir ajuda.

O menino contou com a conivência dos pais e dos professores, que o passavam de ano. “Quando eu tinha oito anos, eu rezava na hora de dormir ‘Deus, por favor, amanhã, quando for a minha vez de ler em sala, faça-me ler'”. Mas o milagre não acontecia. O milagre da leitura, porque o da aprovação sempre aparecia ao fim do ano letivo.

 John também contribuiu, aprendendo a disfarçar sua condição iletrada. Arrumava problemas em sala de aula e passava boa parte do tempo na sala do diretor. Nas provas, ele sempre pedia ajuda dos amigos para que respondessem suas provas.

Em uma ocasião, chegou a invadir a salas dos professores três noites seguidas. “Invadi a sala à meia-noite, como um ladrão, para procurar pela prova. Eu sabia que havia cruzado uma linha – não era mais apenas um estudante que colava, eu era um criminoso”, relembra. Em 1956, ele recebeu o diploma do ensino médio.

 Trapaceiro na Universidade

E John chegou à universidade, em El Paso. Lá aprimorou suas técnicas para burlar o sistema. Ele roubava provas e convencia colegas a completar suas tarefas, além de se dedicar a atividades esportivas. Trapaceiro virou o sobrenome de John. “Eu não podia ler palavras, mas podia ler o sistema e as pessoas”, disse. Em 1961, John se tornou bacharel em educação mesmo analfabeto.

 A vida de professor

Durante 17 anos, o americano deu aulas em uma escola secundária de Oceanside. John conta que não foi fácil. Fugia das reuniões de professores, da lousa da sala de aula, e desenvolveu uma técnica de ensino baseada nos recursos oral e visual. Um gênio, não? “Não havia uma palavra escrita por mim em sala de aula. Eu sempre tinha dois ou três professores assistentes para escrever no quadro e ler o boletim”, conta.

Fim do disfarce

Em um determinado momento, a farsa ficou insuportável e John pediu licença da escola. “Às vezes me sentia um bom professor, porque trabalhava duro e me importava com o que fazia. Mas não era um bom professor. Eu estava errado. Algumas vezes isso me deixava fisicamente doente, mas eu estava dentro de uma armadilha e não podia contar para ninguém.” John foi professor entre 1961 e 1978.

 Aprendendo a ler

Depois de oito anos que pediu demissão da escola, John resolveu mudar sua história ao ouvir sobre um curso de alfabetização na biblioteca. Lá, ele ganhou uma tutora voluntária, de 65 anos. Depois de um ano, já sabia ler. Pelo menos tanto quanto os seus alunos. “Por 48 anos, eu vivi no escuro. Mas finalmente eu enterrei o fantasma do meu passado.”

 O que ele aprendeu a partir desse ponto levou-o a iniciar uma fundação para ensinar os outros com dificuldades de aprendizagem para ler, a Fundação John Corcoran . “Eu queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução”, diz, e continua. “Não somos ‘burros’, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais”. John também já  lançou dois livros. “O professor que não sabia ler” e “A ponte para a alfabetização”, ambos os títulos com tradução livre para o português – os exemplares não foram lançados ainda no país.  Seu terceiro livro, “My Literacy Manifesto” (algo do tipo, meu manifesto de alfabetização), ainda será lançado.

Com informações da BBC Brasil e Fundação John Corcoran

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